Correr virou sacrifício?
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Correr virou sacrifício?

Uma análise de como o esporte de endurance foi sequestrado pela cultura do sofrimento e por que vejo isso como um problema.

Abra o Instagram agora.

Role o feed por dois minutos e preste atenção no que os atletas publicam sobre treino. Provavelmente você vai encontrar alguma variação disso:

“Acordei sem vontade, mas fui assim mesmo.”

“Chuva, frio, exaustão. Mas a planilha mandou e eu obedeci.”

“Sofri muito hoje. Mas é isso que separa os fracos dos fortes.”

Parece motivação. Parece disciplina.

Mas quanto mais eu observo, mais percebo outra coisa: é uma narrativa que transforma o sofrimento em identidade, e que está fazendo um estrago gigantesco e silencioso na forma como as pessoas se relacionam com o esporte.

O problema não é sofrer. É a apologia.

Todo atleta sabe que o treinamento exige esforço. Às vezes dói. Às vezes você está cansado e tem que ir mesmo assim. Isso é parte do processo, ninguém que treina sério está discutindo isso.

O que me preocupa é outra coisa: a transformação do sofrimento em um valor quase que em troféu.

Quando o critério de uma boa sessão de treino é o quanto você sofreu, algo não está certo

Quando a prova de que alguém é um atleta de verdade é a quantidade de histórias de superação traumática que ele publica, algo está errado.

Quando iniciantes chegam no esporte achando que se não estão no limite, não estão treinando direito, está muito errado.

 

Ninguém é obrigado a treinar.

Essa frase parece óbvia, mas no contexto das redes sociais ela precisa ser repetida muitas vezes:

Você treina porque quer. Porque escolheu. Porque o esporte te dá algo, saúde, desafios, amigos, prazer e que vale o custo do esforço.

Não é uma obrigação. Não é uma punição. É uma escolha.

Então por que a linguagem que usamos para falar de treino é a mesma que usamos para descrever algo que parece ruim?

“Tive que ir.” “Sobrevivi.” “Me forcei.” “Não tinha saída.”

Tinha saída. Sempre tem. Você foi porque quis. E não tem nada de errado em reconhecer isso.

O esporte não precisa ser redenção. Pode simplesmente ser algo que você escolheu e que, na maior parte do tempo, você gosta de fazer.

 

O que isso faz com o esporte

Existe uma consequência prática nesse discurso que raramente é discutida:

Ela afasta as pessoas.

Quando o esporte é representado como uma sequência de martírios, quem está de fora pensa duas vezes antes de entrar. E quem está dentro começa a achar que, se não está sofrendo, não está no lugar certo.

Já ouvi relatos de corredores que abandonaram o esporte porque se sentiam “fracos demais”, não pela distância ou pelo esforço, mas porque não se reconheciam na narrativa de sofrimento constante que viam nas redes. Sentiram que não tinham o “perfil” de corredor.

Isso é um problema de cultura, não de preparo físico.

 

O que aprendi com o Ultra Endurance

Há uma ironia aqui.

As provas de ultra endurance, exatamente as que mais exigem do atleta, as que mais colocam o sofrimento à prova raramente produzem atletas que fazem apologia ao sofrimento.

Quem já correu provas longas, que levam horas sabem que glorificar o sofrimento é ingenuidade. Você aprende, na prática que sofrimento não é a meta. É um sinal. Às vezes, sinal de que você está no seu limite certo. Às vezes, sinal de que você passou do ponto e precisa gerenciar o que vem pela frente.

O atleta de longa distancia não vence porque sofre mais. Vence porque sabe o que fazer com o sofrimento, como interpretá-lo, como gerenciar, e quando o sofrimento passou do limite e ameaça ao objetivo.

Essa é a mentalidade que faz diferença. Não a glorificação. A gestão.

 

Uma sessão que foi boa pode simplesmente ter sido boa

Deixa eu terminar com algo simples.

É raro, muito raro, ver alguém publicar nas redes sociais que o treino foi prazeroso. Que correu bem, sentiu o corpo fluir, e chegou em casa satisfeito sem nenhuma história de superação para contar.

Parece que isso não vale post. Não gera engajamento. Não é o conteúdo que as pessoas querem ver.

Mas se você perguntar para qualquer pessoa que corre a bastante tempo quais foram os treinos que mais importaram, uma boa parte deles vai te descrever sessões assim: foram executadas, sem drama.

Não precisa sofrer para provar que é atleta.

Precisa aparecer, treinar, e entender o que está fazendo e por quê.

Isso que faz um atleta de performance.

Bem-vindo à MXP ENDURANCE.

Jeferson Dias | Head Coach MXP Treinamento

Autor: Jeferson Dias.


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